
Eu te peço que me ajude a ser melhor
E pra isso, me esqueça no meu canto, vez ou outra...
É que o meu aprendizado necessita solidão,
Só assim minha presença é mais saudável.

Tenho recebido mensagens fantásticas de amigos pelo e-mail. Muitas delas são histórias permeadas de grandes oportunidades de reflexão e que, por isso, nos são úteis para enxergar a vida e seu constante movimento de travessia, de modo que possamos perceber onde nos encontramos e de que modo estamos em meio a suas tramas inquietas e curvas surpreendentes. Assim, gostaria de partilhar neste post uma dessas histórias. É um convite para olharmos mais de perto os bastidores de uma vivência pessoal, cujos percalços vêm repletos de significado e força de aprendizagem para o cultivo de nossos passos na vida.
Elton Garcia (Bastidores da Humanidade)

“No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: ‘E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?’ E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.”

"O peso que a gente leva..."
Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?
As perguntas são muitas... E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez?
Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.
É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.
E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu, eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É conseqüência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou.
É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro.
Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias... Hospitais, asilos, internatos...
Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar.
Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.
Fábio de Melo
PSICOLOGIA HOSPITALAR...
>>> a HUMANIZAÇÃO da SAÚDE
A psicologia nos confere acesso aos bastidores da humanidade, aos espaços reservados das vivências, segredadas nos recônditos da história pessoal de cada ser humano. São os locais em que residem as mais diversas e complexas expressões do território dos sentimentos, e, por isso, são também os espaços onde manifestam-se as experiências da dor, das perdas, dos medos, dos desencontros... São os calvários da existência. Adentrar esses espaços pelos recursos próprios deste ofício, na abertura oferecida pelo possível de cada um, é um processo de comprometimento cujo objetivo é conhecer mais intimamente suas nuances e desdobramentos, de modo a conferir às pessoas a possibilidade do acerto, da superação, do aperfeiçoamento, bem como do recomeço, da re-significação… É tocar e cuidar a vida pelas tramas dos delicados solos da emoção, território onde residem as mais complexas relações da privilegiada condição humana.
Assim, neste momento, quero dedicar os solos deste post para ofertar uma interessante reflexão sobre a Psicologia Hospitalar e sua importância, não apenas como via de auxílio e superação, tanto para os pacientes quanto para os profissionais, mas, sobretudo como caminho para o resgate do processo de Humanização da Saúde, do cuidado para com os bastidores da existência de cada ser humano, de cada vida, fragilizada e combalida em meio a dura experiência da dor, da enfermidade, da perda, da morte…
Aproveito para reiterar ainda mais o meu carinho e admiração para com este ilustre ramo da Psicologia, que de fato, penetra de modo incisivo os surpreendentes bastidores da vida humana, no exercício da nobre missão de resgatar e salvaguardar o seu valor e dignidade, em face aos duros percalços da vida…
Elton Garcia
Bastidores da Humanidade
“Quero aprender a ajudar gente com problemas… Quero dar atenção a eles…”
O foco do Psicólogo Hospitalar é o paciente e sua família. É a partir deste foco que atua com A EQUIPE DE SAÚDE.
Os profissionais que atuam a mais tempo tendem a ser menos receptivos do que os mais novos… O discurso médico tem por tradição excluir a subjetividade do individuo que traz sua queixa. Deve-se conscientizar a equipe quanto ao lado emocional do paciente. O Psicólogo também poderá ajudar os profissionais a refletir sobre variadas questões…
“E se um paciente morresse? – Quem tem a morte de errado? Por que temos esse medo mortal? Por que não tratamos a morte com humanidade, dignidade, decência e até com humor? A morte não é o inimigo. Se quiserem enfrentar um mal, enfrentem o mal da indiferença…”
Mas também é preciso lembrar a subjetividade do profissional hospitalar. As tensões intraprofissionais são muitas vezes expressas em comportamentos interpessoais. E nesta profissão, lida-se cotidianamente com situações que os afetam: doenças, pacientes terminais ou de UTI, morte, dificuldade da família em aceitar a situação, alta carga horária… e o choque ao não saber lidar com o paciente. E essas situações aumentam o nível de ansiedade e comprometem a plena execução das tarefas. Ou seja, o comportamento profissional reflete diretamente as emoções humanas dos indivíduos que compõem a equipe.
O psicólogo irá ajudar a equipe a entrar em harmonia, adquirida através do diálogo e da tolerância, a fim de promover o melhor para o paciente. “Toda ação transformadora da sociedade só pode ocorrer quando indivíduos se agrupam” (Lane).
“Cultivem amizades com essas pessoas incríveis, as enfermeiras. Cuidam de pessoas dia após dia. Têm muito o que ensinar… Bem como os professores…”
“Compartilhei da vida de pacientes e pessoal do hospital. Rimos e choramos juntos. Quero dedicar a vida a isso. A missão do médico deve ser não apenas de evitar a morte, mas melhorar a qualidade de vida. Tratando o mal, se ganha ou se perde. Tratando o indivíduo, garanto que vão ganhar, independentemente do desfecho”.
Vale ressaltar que a Psicologia Hospitalar é uma área ampla e em crescimento, e vai muito além de um simples trabalho… É o lidar co a complexidade do ser humano nas mais distintas emoções.
Vídeo/produção: Alessandra Batista Ramos, Ana Carolina dos Santos, Aneline Meneses Nicolau, Janaína Ortiz dos Santos, Julie Trandafilov, Lorim Saori Sato, Priscila da Silva Pereira.
Postado no YouTube por: Psicorenzi - "O Trabalho de Humanização dentro dos Hospitais depende de cada profissional! "
Mais vídeos deste tema no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=gmfYtbjR7T4



